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O desafio de transformar sustentabilidade em estratégia econômica

Belém será a vitrine para o Brasil transformar compromissos climáticos em projetos e investimentos concretos

Belém do Pará sediará em novembro a COP30, uma conferência marcada por sua ambição de transformar compromissos climáticos em execução concreta. O Brasil chega ao encontro com um paradoxo evidente: sendo potência ambiental e energética, investe pouco em infraestrutura –e o pouco que investe não cobre a depreciação do seu capital fixo. O resultado é visível nas redes fragilizadas, nas enchentes recorrentes e no custo crescente dos seguros. Em última análise, faltou transformar sustentabilidade em valor de negócio –e isso exige projetos estruturados com métricas de risco, retorno e resiliência que falem a língua de governos, bancos públicos e investidores.

A COP30 é intitulada “a conferência da implementação”. Seus eixos temáticos, em especial infraestrutura, cidades, adaptação e água, refletem essa agenda prática. Nesse contexto, o legado dos laureados com o Prêmio Nobel de Economia de 2025 –Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt– ganha relevo: ao destacarem como inovação, competição e renovação tecnológica orientam o crescimento sustentável, oferecem um arcabouço crítico para pensar como infraestrutura pode ser repensada. Investir não é só construir mais –é substituir o ultrapassado, adaptar ao clima, digitalizar, modularizar, e, sobretudo, institucionalizar a capacidade de mudança.

As cidades concentram 80% do consumo de recursos e grande parte das emissões —o que as torna tanto problema quanto solução. Nesse cenário brasileiro, drenagem, contenção de encostas, mobilidade, energia e saneamento não podem mais ser tratados separadamente, mas como um sistema interligado. O país investe pouco em infraestrutura resiliente; não raro, os projetos sequer consideram eventos extremos —chuvas intensas, ventos severos, alagamentos. A prevenção —por meio de estudos hidrológicos, traçados fora de zonas de risco, redes elevadas, redundâncias e protocolos operacionais— custa mais no início, mas resulta em economia substancial no longo prazo.

Esse custo inicial mais alto melhora substancialmente o perfil de risco-benefício: evita o ciclo eterno de destruição e reconstrução. É exatamente esse tipo de transição —retirada de estruturas obsoletas para dar lugar a novas— que se refere ao conceito de “destruição criativa” dos Laureados em 2025. E essa transição só ocorre se houver regulação eficaz, mercados capazes de precificar risco, instituições que fomentem inovação e mecanismos financeiros que conectem público, privado e bancos de fomento.

A escala do desafio exige uma abordagem regional, não só municipal. Bacias hidrográficas, conurbações metropolitanas e arranjos de mobilidade intermunicipal escapam aos limites administrativos tradicionais. Consórcios entre municípios, governança clara, carteira de projetos e acesso a financiamentos nacionais e internacionais permitem ganhos de escala e eficiência. Nesse quadro, bancos públicos como BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e Caixa  Econômica  Federal devem assumir um papel catalisador: estruturar garantias, oferecer instrumentos de blending, mitigar riscos regulatórios e de demanda e criar linhas verdes de longo prazo.

O setor de saneamento oferece uma janela concreta: frente às metas de universalização até 2033, a agenda real é de segurança hídrica urbana —modernização de redes, integração com drenagem, proteção de captações e antecipação de eventos extremos. No transporte de massa, os critérios de local, materiais, sistemas de bombeamento e contratos precisam refletir a nova realidade climática. Não se trata de “luxo técnico”, mas de gestão de risco e boa governança.

Nenhuma dessas transformações anda sem integração entre mercado, governo e bancos públicos. O governo estabelece metas, regula e prioriza; os bancos estruturam e financiam; o mercado entrega engenharia, governança e eficiência operacional. Quando esse tripé funciona, PPPs e concessões deixam de ser atalhos e passam a ser instrumentos consistentes de política pública. Quando falha, aparecem aditivos, disputas judiciais, obras paradas ou, pior, tragédias evitáveis.

Para a COP30, o foco precisa ser reduzir a distância entre promessa e entrega. Há medidas ao alcance imediato: padronizar cláusulas climáticas em contratos de infraestrutura; criar fundos garantidores regionais; expandir linhas verdes com juros atrelados a desempenho; acelerar certificações de green bonds; integrar seguros paramétricos; e profissionalizar a fase de estruturação, quando 80% do sucesso ou fracasso é definido.

Os Nobel chamam atenção para uma verdade simples: inovar custa, mas não inovar custa muito mais. Em um país continental e heterogêneo como o Brasil, investir em infraestrutura resiliente significa também reduzir desigualdades –porque os desastres climáticos atingem 1º e com maior maior intensidade os mais vulneráveis. Nesse sentido, sustentabilidade deixa de ser mero adjetivo reputacional e se torna critério de eficiência intertemporal: proteger ativos, pessoas e o meio ambiente enquanto se gera valor no longo prazo. Belém será o teste –e a vitrine– dessa ambição. Se a conferência conseguir aproximar a gramática climática da gramática do investimento, transformando metas em projetos e projetos em contratos financiáveis, o país poderá sair de lá com mais que declarações: poderá inaugurar um ciclo de modernização com base técnica, financeira e social. Em última instância, infraestrutura resiliente é a tradução prática da teoria econômica que os Nobel desenharam e a resposta concreta de que crescimento sustentável nasce de instituições que recompensam inovação e execução. A conta, como sempre, aguarda-nos na próxima enchente.

Notícia publicada pelo Poder 360.

Rodrigo de Pinho Bertoccelli
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